Nos últimos anos, a questão da saúde dos idosos tem ganhado destaque, especialmente em eventos voltados para essa faixa etária. O 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa, conhecido como Gastro 70+, que ocorrerá em São Paulo no final deste mês, se destaca como uma oportunidade necessária para discutir temas relevantes, como o aumento alarmante de casos de câncer gástrico no Brasil. Atualmente, entre 20 mil a 25 mil novos casos da doença são registrados anualmente, com projeções que indicam um salto para mais de 40 mil até 2050.
Em entrevista com o gastroenterologista Luiz Gonzaga Vaz Coelho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e pioneiro em pesquisas sobre a bactéria Helicobacter pylori, ficou claro que a luta contra o câncer gástrico começa na infância. A infecção por H. pylori, que geralmente ocorre antes dos dez anos, é assintomática e pode se manifestar décadas depois, levando a complicações graves. “Todo indivíduo que é infectado desenvolve uma inflamação silenciosa no estômago, que pode evoluir para câncer em um percentual preocupante”, afirmou Coelho.
A Organização Mundial da Saúde classifica a H. pylori como um carcinógeno do Grupo 1, ao lado de substâncias como o tabaco e o amianto. Em países como Japão e Coreia, onde as taxas de câncer gástrico são elevadas, medidas de rastreio foram adotadas para identificação precoce da bactéria. Coelho destaca que, embora o tratamento inicial com antibióticos seja eficaz, a falta de sintomas torna o diagnóstico um desafio. “Na maioria dos casos, o câncer se desenvolve silenciosamente ao longo dos anos”, acrescentou.
A endoscopia é frequentemente utilizada para detectar a H. pylori, mas métodos menos invasivos, como testes respiratórios e de antígeno fecal, também estão disponíveis. O professor Coelho enfatiza a necessidade de precauções especiais ao realizar endoscopias em pacientes acima de 70 anos, onde a avaliação global da saúde é crucial para evitar riscos desnecessários.
Além disso, a Federação Brasileira de Gastroenterologia lançou a campanha Setembro Rubi, com o objetivo de conscientizar a população sobre o câncer gástrico. A campanha visa um programa para monitorar familiares de primeiro grau de portadores da doença, grupo que apresenta risco significativamente maior. “Testes não invasivos devem ser realizados até os 30 anos, e endoscopias a partir dessa idade, para garantir um acompanhamento adequado”, orientou Coelho.
Embora o sal tenha sido considerado um fator causal isolado no passado, a interação com a H. pylori eleva o risco de gastrite e câncer. O uso do cigarro também é um agravante, com a recuperação do risco normal levando uma década sem fumar. Os sintomas, que surgem tardiamente, incluem emagrecimento, dor persistente no estômago e alterações nas fezes, alertando para a importância do diagnóstico precoce.
O Gastro 70+ está agendado para os dias 30 e 31 de outubro, no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (Iamspe). O evento promete ser um marco no debate sobre a saúde digestiva dos idosos, abordando questões críticas que afetam a qualidade de vida dessa população.
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