No início deste mês, o The Guardian trouxe à tona um artigo provocador de Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico e atual enviado especial da ONU para a educação global. Nele, Brown descreve um fenômeno crescente nas principais cidades europeias: um “terremoto juvenil” que reflete uma revolta coletiva entre as novas gerações. Segundo ele, é crucial entender as razões por trás dessa insatisfação que une os jovens em protestos que vão muito além das demandas por educação.
Os protestos começaram na França e rapidamente se espalharam por países como Itália, Bélgica, Áustria, Grécia e Alemanha. As razões são variadas, desde o financiamento da educação até o temor de um serviço militar obrigatório, passando pela falta de moradia acessível na Espanha e em Portugal e pelas questões ambientais na Indonésia. Na Argentina, os jovens se levantam contra a austeridade econômica. Esses movimentos têm em comum a sensação de que os jovens estão sendo deixados de lado em decisões que moldam seu futuro.
Brown observa que o contexto atual é mais complexo do que em gerações anteriores. Os jovens enfrentam uma combinação de desemprego exacerbado pela inteligência artificial, cortes em gastos públicos que favorecem os mais velhos e um sistema educacional que não lhes garante acesso adequado. Essa crise é alimentada por promessas não cumpridas de uma vida melhor, uma realidade que gera frustração e desconfiança nas instituições.
Entretanto, a responsabilidade pelo descontentamento não pode ser atribuída apenas à geração dos baby boomers. Embora eles tenham usufruído de vantagens significativas, é necessário desmistificar a ideia de que essa geração tenha sufocado seus sucessores. A jornalista MP Dunleavey, da revista do Centro de Longevidade de Stanford, sugere que, ao invés de buscar culpados, a sociedade deve trabalhar por um novo contrato social que reduza as disparidades de riqueza entre as gerações.
Dunleavey destaca que tanto jovens quanto idosos estão sob pressão financeira. Com o aumento da expectativa de vida, os idosos temem não conseguir arcar com os custos de uma vida mais longa, enquanto os jovens lutam por estabilidade econômica. Nos EUA, os baby boomers concentram 51% do patrimônio familiar, em contraste com os 26% da Geração X e apenas 11% dos Millennials, que enfrentam dificuldades em poupar para suas futuras aposentadorias.
James Chappel, professor da Universidade Duke, sugere uma revisão das normas que regem o envelhecimento e as relações entre gerações. Ele defende que o modelo atual, que pressupõe que os indivíduos devem se sustentar sozinhos após os 65 anos, não é mais viável em uma sociedade onde a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos. Chappel propõe um novo pacto social que promova apoio mútuo entre as gerações, garantindo proteção para os mais velhos e uma rede de suporte para os mais jovens.
Embora a ideia de um novo pacto pareça utópica, ela pode ser a chave para resolver as tensões intergeracionais que estão emergindo em um mundo em rápida transformação. A pressão por mudanças é palpável, e talvez o momento de ação seja agora.



